sexta-feira, 20 de março de 2015

A verdade como fim e como método


- por Rodrigo Antônio -

"Aletheia" significa verdade em grego

"Verdade" é uma palavra que se tornou maldita para os nossos contemporâneos; aos seus ouvidos ela soa como se fosse uma injúria, uma ameaça, uma loucura. Essa sua atitude, porém, revela que eles ou são de todo ignorantes acerca dos dados básicos da epistemologia (que é o ramo da filosofia que estuda o conhecimento humano) ou então que foram enganados por alguma pseudo-epistemologia de péssima qualidade. Em ambos os casos estamos diante de um problema de natureza essencialmente intelectual e cuja resolução depende - como em qualquer outro problema intelectual - da aquisição e assimilação mental de alguns conhecimentos a mais. Vejamos se conseguimos aqui oferecer ao menos uma pequena dose destes aos nossos leitores.

Quando atribuímos um predicado a um sujeito, e essa atribuição corresponde à realidade desse sujeito, a essa correspondência predicado-sujeito nós damos o nome de "verdade". Ou seja: "verdade" é o título que damos ao estado de adequação entre o pensamento e a realidade - adequação esta averiguável, por sua vez, mediante os procedimentos de intuição direta, indução ou dedução. 

Exemplo: se digo que João está vivo, e ele de fato está com suas funções vitais funcionando, então eu disse uma verdade, isto é, eu afirmei algo que corresponde ao que se passa na realidade. Conhecemos, por ciência indutiva e por experiência direta, que certos sinais orgânicos são indício suficiente de vida; constatamos, então, por meio dos nossos sentidos ou com a ajuda de algum aparelho, que em nosso João esses sinais estão presentes; concluímos que a verdade é que ele está vivo. 

Claro, além de sabermos que ele vive, podemos querer descobrir muitas outras coisas a seu respeito: quantos anos tem, onde mora, quem são seus pais, que língua fala, o que pensa sobre tal e qual assunto, etc. Nesse sentido, muitas outras verdades acerca dele são ainda descobríveis e, à medida em que forem sendo achadas, mais aumentará nosso conhecimento sobre o bendito João. Mas, naquela questão sobre ele estar vivo ou não, nessa a verdade já foi descoberta e dizer o contrário dela seria simplesmente um erro e uma mentira.

Ter um conhecimento verdadeiro acerca de X significa saber sobre X algo que corresponde à realidade de X; significa não estar inventando sobre X algo diferente do que a investigação da realidade de X permite concluir. 

E aqui chegamos ao ponto em que muitas pessoas se atrapalham ao considerar o conceito de "verdade" e, por conta dessa confusão, caem no relativismo e passam a dizer - sem saberem o que dizem - que "não existe verdade". Elas confundem "verdade" com "onisciência" ou com "infalibilidade" e, como é bastante visível - é bastante verdade - que os seres humanos não somos nem oniscientes e nem infalíveis, concluem que "não existe verdade". 

Veja bem, caro leitor: o conceito de "verdade" - adequação entre o pensamento e a realidade - não implica onisciência e nem infalibilidade, mas não se anula nenhum pouco por causa disso, visto que sua definição, se bem entendida, já contempla essa limitação, e existir com limitações não é o mesmo que não existir.

Sempre que fazemos sobre um objeto alguma afirmação que corresponde à realidade dele, estamos dizendo a verdade, muito embora estejamos longe de possuir qualquer onisciência ou infalibilidade. Até onde a captação da realidade nos é possível, acertamos no alvo em se tratando daquela afirmação sobre a coisa; por certo há muito mais a ser conhecido sobre ela e que nós não conhecemos, e pode mesmo ser que esses conhecimentos que nos faltam sobre a coisa nos mostrassem que nos enganamos naquela nossa afirmação, mas, dentro do que conseguimos averiguar da realidade da coisa, isso é o que nos é possível afirmar. Se, porém, nossa afirmação não estivesse de acordo nem com o que já conseguimos captar da realidade da coisa, então estaríamos diretamente - e absurdamente - optando pelo erro.

O conceito de verdade comporta, pois, com tranquilidade, a limitação de não sermos oniscientes e nem infalíveis, porque, para estarmos dizendo a verdade sobre X, basta que nesse ato estejamos expressando algo que conhecemos de X e que esse algo corresponda ao que a realidade de X permite afirmar - salvaguardada sempre a possibilidade de novos dados sobre X surgirem e melhorarem o conhecimento que temos dele. Como é a própria definição de verdade que exige a adequação entre a ideia e o real, e o real pode sempre ser mais e melhor conhecido, logo é da própria definição de verdade que decorre essa sua tranquila coexistência com a não-onisciência e a não-infalibilidade.

O repúdio de muitos dos nossos contemporâneos até à simples menção da palavra "verdade" pode explicar-se pela sua ignorância acerca do que acima expusemos, em consequência da qual acabam confundindo as limitações do conhecimento verdadeiro com uma suposta inexistência deste. É como se alguém, considerando as limitações da medicina, concluísse que a medicina não existe. Ora, assim como a ideia de medicina (arte de curar) não exige que já se tenha de possuir, em ato, a cura para todas as doenças, e nem é anulada pelo fato de ocorrerem erros médicos, também a ideia de verdade (adequação pensamento-coisa) não exige que nosso saber sobre a coisa seja tão perfeito que não possa crescer, e nem é contradita pelo fato de erros na ordem do conhecimento acontecerem. Ser capaz de algo não é o mesmo que não ser capaz de nada; bem como errar às vezes não é o mesmo que nunca acertar - são distinções que importa ter em mente.

A negação da existência da verdade acarreta consequências muito mais sérias do que se possa imaginar. A começar pela sua própria autocontradição absurda: se a sentença "Não existe verdade" for um pensamento sem correspondência com a realidade, então ela é irreal e falsa, e por isso mesmo merece ser rejeitada; mas se a sentença "Não existe verdade" corresponder à realidade, então ela é verdade e, portanto, existe verdade e a referida frase é, por consequência, falsa também. Nos dois casos, portanto, ela é falsa, não existindo nenhuma possibilidade lógica de ser verdadeira. Ademais, se "não existe verdade", então como se provará isso mesmo que se está afirmando? Porque ou as provas demonstrarão isso (ou seja: estabelecerão um laço lógico demonstrativo de verdade) ou não demonstrarão: no primeiro caso se autodestroem por implicarem aquilo mesmo que estão tentando impugnar, e no segundo por insuficiência impugnativa. É impossível, pois, que não exista verdade. A existência de adequações ao menos pontuais entre nosso pensamento e a realidade - qualquer que seja a natureza postulada dessa realidade - é O dado primordial do raciocínio humano, dado sem o qual não é possível pensar de modo minimamente racional seja no que for.

Dizer que "não existe verdade" é dizer - por implicação necessária - que todos os conhecimentos humanos são falsos. Ora, experimente achar falso, por exemplo, o conhecimento de que não podemos atravessar portas fechadas: você quebrará a cara, literalmente. A realidade está infinitamente longe de se dobrar às nossas fantasias: ou nós nos adequamos a ela - e o nome disso é "verdade" -, ou nos quebramos inutilmente contra ela. E por isso mesmo alcançar conhecimentos verdadeiros sobre as mais variadas questões nos é tão importante: porque disso depende o bom andamento de nossas relações com a realidade. 

Por outro lado, dizer que "cada um possui a sua verdade" também não está correto, porque, muito embora cada um de nós, de fato, possua um nível próprio de conhecimento (o qual pode crescer indefinidamente), o critério para a validação desse conhecimento é, de direito (ainda que, na ordem dos fatos, certos bocós finjam não enxergar isso), o mesmo para todos nós, ou seja, a realidade, tanto quanto nos é possível conhecê-la mediante a intuição direta, a indução e a dedução. Logo, se aquilo que eu defendo está de acordo com a realidade, então isso não é a "minha" verdade: é A verdade sobre a coisa nesse ponto - o que não impede, claro, que haja ainda muito mais a descobrir sobre a coisa. 

Em outros termos, a verdade é objetiva, e não subjetiva, visto que o seu critério é o objeto conhecido, e não o desejo ou a fantasia do conhecedor. Quando afirmamos X sobre Y, ou estamos certos ou estamos errados, ou estamos parcialmente certos (o que implica em estar parcialmente errado) - parecem ser três opções, mas são apenas duas, visto que a hipótese da parcialidade apenas modula quantitativamente as duas únicas qualificações em jogo: o certo e o errôneo, o que se adequa à realidade como esta objetivamente se apresenta, e o que não se adequa.

A verdade - como adequação entre nosso pensamento e os objetos pensados - não é algo misterioso e nem místico, secreto ou de difícil acesso, reservado aos "iniciados". Muito pelo contrário, estamos o tempo todo realizando, em maior ou menor escala, esse processo do conhecimento verdadeiro. Sempre que você, por exemplo, não usa a vassoura da faxina para escovar os dentes, e nem tenta varrer a casa com a escova dental, você está evidentemente adequando seu pensamento à realidade das coisas. E sempre que você diz que uma coisa é aquilo que ela é, ou que ela não é aquilo que não é, você está "descaradamente" dizendo uma verdade - mesmo que depois, por cúmulo de auto-inconsciência, venha a cair na bobagem de afirmar que "verdade não existe".

Penso que, da consideração da imperiosa necessidade que temos de manter boas relações com a realidade, nosso leitor não custará a chegar à conclusão de que a verdade, o conhecimento verdadeiro, é de suma importância para nós, é um fim a ser por nós perseguido. Tendo isso em vista, sobretudo deve importar-nos, em primeiro lugar, a nossa própria aquisição de conhecimentos verdadeiros; se depois, todavia, nos for possível também transmitir a outrem esse saber, por certo teremos contribuído de uma maneira genuína com o bem dos seres humanos. 

Como, porém, empreender essa busca da verdade para nós mesmos e para os outros? Responderei que o grande meio para a busca e difusão da verdade não é outro senão a mesma verdade - a verdade é não somente o fim, como também o método.

Acalmem-se os lógico-metafísicos que porventura me estiverem lendo: sei muito bem que uma coisa não pode ser causa de si mesma, visto que para tanto seria preciso que ela existisse antes de existir, o que é contraditório, uma vez que nada pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Logo, não é nesse sentido que minha afirmação do parágrafo precedente deve ser entendida. 

O postulado da verdade como método para a consecução da verdade como fim significa que a apreensão da verdade é de tal modo o movimento natural de nosso espírito, que basta o contato com a realidade para que este absorva verdades e mais verdades de modo instantâneo e incontornável. Estas apreensões primeiras, de caráter básico e praticamente involuntário, são o que nos permite passar a apreensões segundas e cada vez mais sistemáticas e voluntárias, fazendo com que, de verdades mais diretamente conhecidas cheguemos a outras mais especiosas, e destas, como que lançados de uma plataforma apropriada, para outras de ainda maior alcance, num movimento de exploração cada vez mais perfeita e aprofundada da realidade.

Considere-se o exemplo do progresso do conhecimento em uma ciência como a Química. A história evolutiva desse conhecimento remonta à noite dos tempos: o primeiro contato do homem com a matéria, milhões de anos atrás, já significou um primeiro conhecimento verdadeiro desta por ele, o conhecimento da existência concreta desse algo que nós, hoje, chamamos "matéria", bem como de suas características sensíveis (textura, peso, cheiro, etc.). Foi um conhecimento por intuição direta, isto é, pela experiência dos sentidos. Vieram depois, com o tempo, novas experiências, e foi-se aprendendo a conceituar e sistematizar em conhecimento abstrato aquilo que, a princípio, era puro saber empírico-sensorial. Foi esse acúmulo de conhecimentos verdadeiros sobre a matéria - embora mesclado com várias ideias que depois se revelariam errôneas -, que permitiu ao homem aprimorar as relações de seu intelecto com a matéria até o ponto altamente desenvolvido em que elas se encontram hoje na ciência da Química. Conhecimentos verdadeiros rudimentares geraram conhecimentos verdadeiros medianos; e estes pariram os conhecimentos verdadeiros avançados. De adequação à realidade em adequação à realidade o intelecto progrediu, superando seus próprios limites e autocorrigindo-se de seus erros. A verdade foi o meio para chegar à verdade como fim, meta, alvo.

Isso que dissemos do avanço do conhecimento verdadeiro na Química pode ser estendido a qualquer outro objeto ou área do saber teórico e/ou prático. Para chegar à verdade numa determinada questão o que é preciso é "encharcar-se" de verdades que tenham a ver com aquela questão, "encharcando-se" antes de verdades que tenham a ver com essas outras, e assim por diante, retrocedendo até o primeiro "encharcamento" de verdade que o intelecto recebe quando se é ainda um bebê. Se alguém erra no que diz respeito a uma questão em específico, o que lhe falta é o conhecimento de outras verdades preliminares ao juízo dessa questão. Por isso dizemos que a verdade é o caminho para a verdade.

E em se tratando da difusão da verdade? Como transmitir conhecimentos verdadeiros? A resposta é: também através da própria verdade. É colocando-se a verdade à disposição dos intelectos que ela é absorvida por estes. Essa absorção pode ser lenta, bastante vagarosa até, mas necessariamente ocorre, porque é da própria natureza do intelecto o movimento para a verdade, e mesmo quando ele adere a um erro, o faz por confundi-lo com a verdade, que é o seu único bem. Logo, para transmitir a verdade é preciso dizer (ou escrever, desenhar, fotografar, filmar, apontar em fontes, mostrar pelo exemplo, etc.) verdades, mesmo que essas sejam ou pareçam, num primeiro momento, dolorosas, "ofensivas", "desrespeitosas"... É tão forte o apreço natural do intelecto pela verdade que, depois que este aderiu a um erro por confundi-lo com a verdade, ele esperneará e gritará e fará um escândalo quando tentarem separará-lo daquilo que, por equívoco, havia abraçado: por isso é que toda refutação é recebida com desagrado pelo refutado - a verdade, como uma criança nova, nasce com dor de parto, e o intelecto sangra na hora de dá-la à luz, mas depois sorri e se alegra inefavelmente com a posse objetiva de seu objeto adorado.
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[Continuarei a tratar das questões epistemológicas em infinitos outros textos - se você não entendeu algo, portanto, tenha calma, que voltaremos a este terreno mais vezes. Como qualquer estudioso de história da filosofia sabe, epistemologia é o vício dos filósofos modernos, e eu receio tê-lo contraído... R. A.]

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