segunda-feira, 9 de março de 2015

Para não ser um mero palpiteiro


- por Rodrigo Antônio -

Participando de alguns debates pela internet, tenho tido a tristeza de constatar um profundo espírito de confusão disseminado pelas inteligências, isto é, tenho visto como são difíceis para os nossos debatedores - certamente por falta de preparo, e não de capacidade - as operações intelectuais de análise, síntese e analogia: operações estas que, todavia, constituem como que a medula do processo cognitivo bem sucedido. Sem essas operações não é possível avançar no conhecimento racional do que quer que seja, porque delas depende a compreensão das relações que a realidade nos apresenta: relações de distinção, unidade ou proximidade entre seres ou aspectos do ser - as quais reclamam, para serem apreendidas pelo intelecto, o concurso de uma análise que distinga, de uma síntese que una e de uma analogia que aproxime. Quando o espírito não realiza bem essas operações, a apreensão do real é feita de modo surreal, e o resultado é o caos: a inteligência se torna a "casa da Mãe Joana", embota-se ou mesmo perde-se a acuidade intelectual, não se tendo mais a visão clara do que é e do que não é. 

Podemos avaliar a qualidade intelectual do tratamento de certa questão por parte de uma pessoa (suposto que nós mesmos tenhamos um intelecto razoavelmente treinado) considerando o seguinte: ela de fato compreende o que está sendo discutido? Consegue diferenciar entre o ponto central da questão (ou seja, aquele que determina essencialmente a resposta) e os pontos periféricos (ou seja, aqueles que apenas acidentalmente interferem na resposta)? Consegue perceber quais são as possibilidades de resposta ao problema, bem como o que seria preciso para que essas respostas fossem adequadas? Ela consegue captar as relações lógicas que cada uma dessas respostas estabelece ou estabeleceria com o problema em pauta? Ela entende realmente a resposta dada ao problema pelos seus opositores e o que é que fundamenta, nestes, essas respostas? Sabe por quais razões ela mesma defende o que defende e por quais razões não concorda com seus opositores? Seu campo de visão alcança as implicações daquilo que ela afirma e daquilo que ela nega? É ela capaz de explicar o laço lógico que une sua resposta ao problema com mais propriedade do que a resposta dada por seus opositores? Ela consegue pelo menos entender que o que decide, de direito, uma questão, é justamente essa precisão da satisfação lógica - não meramente psicológica - oferecida pela resposta dada? Compreende que não tem o direito intelectual de sustentar uma tese que foi logicamente refutada, se não se puder refutar também logicamente a refutação sofrida? Demonstra preocupar-se séria e sinceramente com achar a verdadeira resposta à questão levantada, ou parece querer antes impor ao problema a resposta que a ela própria mais agrade?  

Como se pode ver, esses apontamentos gerais são de caráter meramente metodológico, deixando intacta a liberdade para oferecer respostas as mais variadas aos diversos problemas, e exigindo apenas a acuidade e competência intelectual no tratamento destes. Duas pessoas, mesmo tratando com igual seriedade o mesmo problema, podem divergir na resposta que lhe oferecem; essa pode ser, todavia, uma discrepância de boa qualidade, onde os dois lados se situem no mesmo nível de compreensão aprofundada do problema e onde o uso competente da razão por parte de ambos viabilize um diálogo eficaz entre eles.

Entretanto, é impressionante a facilidade com que se encontram hoje em dia indivíduos - e mesmo grupos - firmemente dispostos a debater sobre assuntos importantes sem se preocuparem com as exigências intelectuais que o oferecimento de uma resposta à questão reclamaria. Às vezes, antes mesmo de terem entendido o problema já inventaram uma resposta, e desta farão um estandarte intocável, mesmo que depois se demonstre que ela não satisfaz aspectos essenciais do problema. 

Considere-se este ponto básico de responsabilidade intelectual na prática: a pesquisa e a leitura dos diferentes materiais escritos que façam referência à questão sobre a qual se quer firmar uma posição. Certamente não é muito difícil perceber o quanto esse é - ou deveria ser - um cuidado mínimo por parte de quem trate com seriedade uma questão, uma vez que sem isso ficariam faltando as informações necessárias para se discutir o tema. Pois bem; quem dera que essa atitude fosse adotada ao menos em nível básico pelos nossos debatedores internéticos! Via de regra, o que se nota é antes uma profunda ignorância acerca do que se está, ainda assim, tendo o despautério de discutir, e uma ignorância que, por cúmulo de infelicidade, frequentemente ignora a si mesma, ou seja, o ignorante sequer sabe que não sabe. De toda a bibliografia existente sobre o assunto, o sujeito sequer leu uma única obra, e mesmo assim ainda pretende que a sua opinião seja preferida à de alguém que realmente estuda o tema. Note-se bem: não reclamo aqui de o sujeito não concordar com a tese X ou Y, mas sim de ele não saber aquilo que seria importante saber sobre as teses X ou Y - ele poderia saber e ainda assim discordar dessas teses, mas se ele nem ao menos conhece o que lhes diz respeito, como poderá concordar ou discordar delas? Sua concordância ou discordância não valem nada nesse caso; não representam nada mais do que meros palpites.

Como, porém, apenas apontar o mal não é suficiente se não se apresenta também alguma solução, desejo oferecer algumas dicas para quem, não se contentando com ser um mero palpiteiro, deseje robustecer em seu espírito, mediante treinamento apropriado, a acuidade das operações de análise, síntese e analogia quando aplicadas a um tema em específico, de modo a se pôr em vias de oferecer boas contribuições ao debate sobre o mesmo. Eis as sugestões:

1. Antes de mais nada: aprenda a ler com propriedade. Pode parecer incrível, mas grande número de pessoas se atrapalham bastante na vida intelectual pelo simples fato de carecerem de proficiência em leitura e interpretação textual. Se o leitor entende mal aquilo que lê, por melhor que seja o conteúdo de suas leituras, ele continuará mal informado. Três práticas são necessárias para corrigir esse problema: a) estudar gramática; b) ler muito (pois a habilidade tende a melhorar com a prática); c) e aplicar propositalmente uma intensa concentração na leitura. Maiores detalhes sobre quanto a isso se poderão obter, por exemplo, na obra "A arte de ler", de Montimer Adler. 

2. Em segundo lugar, é inteiramente imprescindível - embora mais do que negligenciado comumente -, o conhecimento de Lógica, tanto da lógica clássica, que vem desde Aristóteles, quanto da lógica matemática, desenvolvida na modernidade, e que complementa e aprimora aquel'outra. Sem o conhecimento de Lógica é muito fácil cair em algum, em vários ou até em todos os seguintes erros: a) não reconhecer um argumento ao se deparar com um; b) não saber como julgar o valor de um argumento; c) não conseguir formular de modo adequado os seus próprios argumentos; d) não saber distinguir entre um argumento e uma explicação; e) não enxergar as relações lógicas estabelecidas ou estabelecíveis entre as proposições; f) não conseguir fazer ou pelo menos entender distinções formais, sínteses e analogias; g) deixar-se enganar por argumentos intrinsecamente falsos (isto é, argumentos que não se adequam às relações lógicas apreensíveis no estudo da coisa em questão); h) não saber nem o que é argumento, proposição, relação lógica, valor probatório, conceito, verdade, falsidade, etc.; i) fazer simplesmente uma confusão total. Por sinal, vale lembrar que, para qualquer assunto de que você queira se ocupar, e seja lá qual for a tese que você for postular sobre ele, a Lógica lhe será de extrema ajuda, visto que ela lhe dará o método para organizar seu pensamento, sem ditar-lhe propriamente o que pensar. Entretanto, prepare-se também para o lado espinhoso de se saber Lógica: você passará a sentir uma grande decepção ao tentar discutir sobre qualquer tema com quem não sabe Lógica, principalmente se a criatura sequer tiver consciência de que não sabe algo que lhe seria essencial saber para organizar de modo racional o seu pensamento.

3. Leia muitos livros sobre o seu tema. Evite perder tempo lendo meros comentários facebookianos sobre a coisa: essas falas são muito superficiais e ligeiras e, por isso, não valem a pena. Os bons livros, pelo contrário, oferecem um tratamento sistemático e aprofundado do assunto, com muitas e importantes informações a serem levadas em conta. Mas veja bem: não basta folhear o livro, não basta apenas começar a ler e parar, não basta ler um trecho aqui e outro acolá; é preciso lê-lo seriamente, e por completo, e tratando de assimilar corretamente o que nele se transmite. Onde achar, porém, esses livros? Experimente o seguinte: dirija-se à biblioteca de uma universidade (ou a uma livraria ou sebo), ache a seção que diz respeito ao seu assunto, e verifique então, um por um, os títulos lá disponíveis, escolha os que lhe parecerem melhores e lance-se à leitura. Será ótimo, inclusive, se você souber ler em outros idiomas, porque há muito material excelente e que nunca foi traduzido para nossa língua. E não espere, por fim, conseguir tratar de modo conveniente um tema sem se dedicar a ele longamente: será necessário ler, por certo, algumas pilhas de livros, o que pode levar anos dependendo do tempo de que você dispor para a leitura.

4. Estude não apenas o seu tema propriamente dito, mas também a área maior em que ele se insere, bem como outros temas que lhe sejam próximos. Isso é necessário porque o nosso tema não existe isolado no vácuo, mas sim inter-relacionado com várias coisas e, portanto, estudar aquilo a que ele se liga é avançar na compreensão dele mesmo. Estudos sérios de ética geral e de biologia reprodutiva e genética, por exemplo, são necessários para se poder enfrentar, com competência, a questão do aborto. Estudos sérios de metafísica, de teologia e de história são necessários a quem queira compreender melhor uma religião. E daí por diante. Note, porém, que para um estudo ser sério também não é de todo indispensável que você faça uma faculdade na área: é perfeitamente possível aliar seriedade intelectual e autodidatismo, desde que se disponha de bons materiais de estudo e de disciplina para utilizá-los.

5. Almeje a sistematicidade. Quero dizer: não se contente com colecionar dados e informações sobre seu tema, mas tente prover-se, no fim das contas, de uma compreensão sistemática dele. Qual é precisamente a(s) tese(s) que você defende sobre o tal tema? Quais os princípios gerais que estão implicados, como pressupostos, nessa sua tese? Quais as consequências que de sua tese se seguem? Quais as provas que você nos apresenta em favor de sua tese e contra as teses opostas à sua? Quais são as objeções que se fazem ou se podem fazer à sua tese, e como você as refuta? O que seria preciso para a sua tese estar errada? Qual o grau de segurança epistemológica que você postula para sua tese (certeza, probabilidade forte ou fraca, mera hipótese)? Como você resolve os problemas correlatos ou similares à sua tese? Há precedentes para sua tese ou você é o primeiro a formulá-la? Sua tese filia-se a alguma escola ou linha histórica de pensamento? O que aconteceria se todos aceitassem a sua tese? O que aconteceria se sua tese fosse levada ao extremo, ao paroxismo? Quais as alternativas fora de sua tese, isto é, se ela não estiver certa, o que possivelmente estará? Essas são algumas das perguntas que o tratamento sistemático de um problema precisa responder, e responder de modo lógico, completo e satisfatório. Enquanto não chegamos a isso, nosso pensamento sobre o tema ainda está no mínimo bastante incompleto. 

6. Vigie suas disposições interiores. Não basta você compulsar as fontes relativas a seu tema, se seu estudo estiver "contaminado" desde dentro - desde dentro de você - por certas coisas que atrapalham a correta apreensão do que está sendo estudado. Mais especificamente: a) evite tomar seu agrado ou desagrado afetivo como critério de verdade: seja sincero na busca desta, aceitando-a mesmo que ela seja dolorosa para seus sentimentos; b) cuidado com os "a priori": se você já iniciar a sua investigação determinado apenas a apoiar uma tese pré-concebida, poderá ocorrer de seus olhos se fecharem como que automaticamente àquilo que a desminta e infirme; c) por tudo isso, claro, esteja sempre sinceramente disposto a mudar de ideia caso descubra que está em erro; d) não rejeite uma boa informação, venha ela da fonte que vier: cultive um tal amor pela verdade que esta seja sempre bem acolhida em seu espírito, qualquer que seja a procedência dela. Mesmo com erros, aliás, sempre se pode aprender algo.

7. E, por último, perseverança. Como diz um antigo provérbio, "Roma não se fez um dia". Penetrar satisfatoriamente na complexidade que envolve um tema importante não é tarefa que se realize de um golpe: demanda tempo e paciência, como o crescimento de uma árvore da qual o plantador da semente só pode esperar comer os frutos após vários anos. 

Competência real na leitura; conhecimento habilidoso (isto é, bem exercitado) de lógica; absorção das informações contidas em muitos livros selecionados e afins ao tema; penetração na área maior de abrangência deste; sistematicidade e organização rigorosa do pensamento; vigilância sobre as disposições interiores; perseverança no estudo - são esses os pontos aos quais precisamos nos ater para podermos conhecer os temas e questões de nosso interesse com verdadeira acuidade intelectual, aplicando-lhes corretamente as operações de análise, síntese e analogia. Sem isso, nós certamente podemos falar do que quisermos e podemos debater sobre qualquer coisa, mas estaremos sendo meros palpiteiros inabilitados a dar uma contribuição realmente substancial ao estudo da questão. Não é preciso que sejamos grandes mestres de sabedoria consumada antes de abrirmos a boca, mas que nossa contribuição seja pelo menos a de verdadeiros estudiosos do assunto.

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