sexta-feira, 1 de julho de 2016

Introdução a Machado de Assis (Gustavo Corção)

* Texto escrito e inserido por Gustavo Corção na abertura de um pequeno volume de trechos seletos de Machado de Assis publicado pela Editora Agir em 1966, como parte da coleção "Nossos Clássicos", sob a direção de Alceu Amoroso Lima. É sempre muito interessante ver um escritor brilhante comentando sobre outro autor genial.

Machado de Assis

Gustavo Corção

SITUAÇÃO HISTÓRICA — Os romances de Machado de Assis foram escritos entre 1872 e 1908, estando em 1881 o ponto de Inflexão que separa as duas fases da obra. Terminara no Brasil a guerra do Paraguai, nos Estados Unidos a guerra da Secessão, e na Europa a guerra Franco-Prussiana. 

Na primeira parte daquele período, o Brasil do segundo reinado desfrutava o otimismo e a tranquilidade características do apogeu da sociedade liberal; e apesar das inquietações periféricas, produzidas pela questão militar, pela questão religiosa, e pela questão social, que naquele tempo tinha as modestas proporções do abolicionismo, pode-se dizer que o Brasil realizava, defasada vinte ou trinta anos em relação à Europa, uma espécie de versão nossa da era vitoriana.

Aproximemos algumas datas: quando Machado escrevia Ressurreição (1872), Tolstoi escrevia Ana KareninaRimbaud, que nos parece tão moderno, publicava Une Saison en Enfer, e Emile Zola prosseguia a publicação da monumental série de romances da escola naturalista, que tanta impressão deixara na obra de Eça de Queirós, e que Machado, com muito bom gosto e muito discernimento, analisa na crítica que fêz do Primo Basílio.

No ano em que Machado escreveu Brás Cubas, o mundo europeu, julgando preparar a apoteose do século das luzes, preparava na verdade o fermento que viria liquidar o mundo burguês e fundar um novo século mais profundo e menos confiante em si mesmo. Estão plantadas as sementes do marxismo, está divulgado o evolucionismo, e está em marcha a revolução estética que ao mundo burguês se apresenta como uma loucura coletiva. Poucas épocas terão sido tão inquietas e perturbadas como esse fim de século, e fim de civilização.

A sociedade brasileira do segundo reinado, protegida por sua própria pequenez cultural, recebia com muito amortecimento as vibrações que vinham da Europa, e preparava um positivismo local, militar, que seria uma espécie de síntese do racionalismo ocidental.

Machado de Assis, homem de muita leitura e muita curiosidade local, acompanhou as duas coisas defasadas, viveu os dois climas espirituais desencontrados, mas não se tornou subserviente nem ao espaço nem ao tempo. Pôs nos romances a côr local e a inquietação do século, contrapondo assim na mesma obra as duas coisas separadas pela história e pela geografia. Viu a Abolição tão desejada; assistiu à mudança de regime com certa indiferença pela República; e veio morrer a poucos passos do princípio do desmoronamento do mundo liberal.

Como homem e cidadão, Machado de Assis é um genuíno representante da sociedade liberal burguesa, e há de ser por isto que insensivelmente, inconscientemente, o trabalho não entra na dinâmica de sua ficção. Seu primeiro cuidado parece ser o de distribuir dotes e heranças, para que seus personagens se movam sem o embaraço da condição servilMas depois dessa concessão ao século, ultrapassa os limites do espaço e do tempo, e deixa uma obra que tem a grandeza da universalidade e da intemporalidade, e o sabor da região e da data.

ESTUDO CRITICO — Quando Machado de Assis, em 1872, teve a ideia de escrever seu primeiro romance, Ressurreição, já não era um obscuro autor que diante de um público indiferente, e às vezes hostil, experimenta seus virginais recursos. Aos trinta e três anos, podia considerar-se um autor conceituado e um homem bem servido; tinha público e lar; gozava fama de fidalgo nas letras e ganhava com a pena o que lhe bastava para uma vida discreta e fina. Cinco anos antes fora agraciado com o grau de Cavaleiro da Ordem da Rosa, por serviços prestados às letras, e três anos antes casara-se com D. Carolina Augusta Xavier de Novais, que não lhe deu filhos, mas deu-lhe aquela parte do casamento que costuma ser mais rara: a felicidade longa e tranqiiila.    Estamos, pois, diante de um homem bem posto no planalto da vida, onde geralmente se estabilizam os valores, e se decidem as promessas afloradas na infância.

Digamos logo o termo que se aplica a este Machado de Assis de 1872, condecorado, aplaudido, admirado, e principalmente amado: um homem bem sucedido. Não se vêem nesse vitorioso os sinais de luta árdua, ou as marcas de ressentimento produzido pela origem humilde ou pela mistura de raças.

Alguns biógrafos e  críticos  julgam  ter descoberto, no tão  falado e tão mal compreendido pessimismo machadiano, sinais daqueles ressentimentos; mas a meu ver quem está com a razão é Barreto Filho no perfil que nos traça: "Não parece justificada a ideia de ter sido vítima de complexos de inferioridade. Ao contrário, a sua coerência, o seu poder de realização, a sua reserva e distinção inatas, e o modo desenvolto e tranquilo de ir pelo caminho certo, sem hesitações e sem atritos, mostram a facilidade com que superou as condições desfavoráveis." (Introdução a Machado de Assis, Agir, 1947, pág. 24).

Graça Aranha, citado na  mesma página por Barreto Filho, diz: "Machado de Assis não revelou nunca esse árduo combate interior, não fêz transbordar no ódio e no despeito a sua humildade inicial. Aristocratizou-se silenciosamente."

Mais tarde, Joaquim Nabuco falará da beatitude de Machado, e verá nele a serena figura de um papa; o que se vê nos retratos, melhor nos últimos, é uma irradiação que está a pedir o qualificativo de majestosa.

Achamo-nos, pois, em 1872, diante do homem tranquilo e do bem sucedido escritor. Para o público, e talvez para êle próprio, chegara aonde por aplicação e talento merecia chegar; mas nós, que conhecemos o resto da história, e que levamos sobre os leitores de 1872 a vantagem de descortinar o futuro — futuro que se chama Brás Cubas ou que tem os olhos de ressaca de Capitu — nós bem podemos nos divertir com o colossal engano em que estavam os assinantes do Diário do Rio de Janeiro, ou os importantes emissários da coroa que pregaram na sobrecasaca do festejado autor a estrela de seis pontas, esmaltada, bordada a ouro e marcada com a solene divisa: "Amor e Fidelidade".

Estavam todos enganados, porque naquela época não existia ainda o que nós hoje chamamos Machado de Assis. E o raro fenómeno não existiria, nem estaríamos aqui a cuidar dele, se a condecoração, a felicidade conjugal e os demais elementos do  planalto acima mencionado tivessem firmado o autor nas cómodas posições conquistadas. Na verdade, a obra machadiana até então realizada tinha qualidades de linguagem mas pouca densidade de conteúdo. Não hesitaríamos em classificar como medíocre o escritor que nos apresentasse a bagagem com que Machado de Assis conquistou, naqueles tempos fáceis, a estima e a consideração dos contemporâneos.

Como disse, não estaríamos aqui a preparar este volume, nem existiria talvez nenhum dos livros constantes da "Bibliografia Sobre o Autor", se a obra posterior fosse um mero prolongamento daquela já então publicada.

O verdadeiro Machado de Assis, isto é, o autor que não hesitamos em colocar entre os mais altos valores da língua portuguesa, ao lado de Camões e de Fernando Pessoa, e que os assinantes do Diário do Rio de Janeiro talvez nem pressentissem, esse, o nosso Machado de Assis, só dez anos mais tarde viria a nascer. E só pôde nascer depois daquele equívoco quê glorificava por antecipação o autor de Dom Casmurro.

Salta aos olhos do mais desatento biógrafo a sorte que teve Machado de Assis até os trinta anos, ou a sorte que tivemos nós de tê-lo assim, aos quarenta, desvencilhado dos conflitos superficiais, e por conseguinte apto a experimentar sondagens mais profundas. Pode-se dizer que a tranquilidade conquistada, a estima, a felicidade conjugal são os elementos que vão permitir a Machado de Assis emancipar-se das aflições periféricas e mergulhar nas experiências mais metafísicas do que dramáticas de sua infânciaA segurança conseguida realçará em sua alma a fragilidade do mundo criado, a contingência do ser que existe por um fio, a miséria do mundo e do homem. Antes disso, porém, Machado de Assis ainda escreverá os quatro romances de sua primeira fase: Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876), Iaiá Garcia (1878).

*    *    *

Nos quatro primeiros romances, Machado já revela a perfeição de seu maravilhoso aparelho de expressão. Em cada uma daquelas obras há páginas que merecem antologia pela graça e pelo engenho da forma, mas essa mesma perfeição evidencia ainda mais a pobreza do conteúdo, e deixa no leitor, talvez por conhecer o resultado futuro, o penoso sentimento de desperdício de talento numa obra sem génio. O próprio autor, a despeito de todo o apoio que lhe dão o sucesso e a felicidade, deixa transparecer, no prefácio à primeira edição de Ressurreição, um fundo de inquietação ou de perplexidade:

"Não sei o que deva pensar deste livro; Ignoro, sobretudo, o que pensará o leitor. A benevolência com que foi recebido um volume de contos e novelas, que há dois anos publiquei, me animou a escrevê-lo. É um ensaio. (...) Não quis fazer romance de costumes; tentei o esboço de uma situação e o contraste de dois caracteres; com esses simples elementos busquei o interesse do livro. A crítica decidirá se a obra corresponde ao intuito, e, sobretudo, se o operário tem  jeito para ela. O que lhe peço com o coração nas mãos."

Foi bom que a crítica do tempo não desse a resposta que nós hoje, ajudados pelo próprio Machado, podemos dar. O romance é fraco e em certas passagens chega a ser ridículo; mas na sua imperfeita mistura de um romantismo já agonizante e de um psicologismo ainda não experimentado, e, sobretudo, no contraste que se nota entre o intuito e o resultado, ou entre a audácia aconselhada por Shakespeare e a pobreza da obra, um crítico do tempo poderia  ter pressentido, poderia ter anunciado um ponto  de transição e até poderia ter vislumbrado alguma coisa de Brás Cubas. O autor quer romper não se sabe que limites, quer ousar, mas as guias das asas ainda não chegaram ao tamanho adulto, e o romance que resulta é quase pretensioso.

Nos que se seguem, observa-se um recuo. São mais bem feitos, observam melhor equilíbrio entre o conteúdo e a forma, revelam acomodação do autor e talvez renúncia daquela audácia prematura e mal sucedida. Sem pretendermos fazer profecia retrospectiva, diríamos que Machado de Assis, naquele tempo de A Mão e a Luva Helena, esteve a dois passos da mediocridade consolidada e satisfeita consigo mesma.

O modo de entender o romance, no que diz respeito à primazia dos personagens sobre o cenário ou sobre os acontecimentos, continua o mesmo, como se vê na "Advertência" feita em 1874 para a primeira edição de A Mão e a Luva: "Convém dizer que tais caracteres — o de Guiomar, sobretudo — foi o meu objeto principal, senão exclusivo, servindo-me a ação apenas de tela em que lancei os contornos dos perfis." Romance, para Machado de Assis, é arte das personalidades, mais do que de feitos e fatos, servindo estes para revelar aquelas.

Alguns anos mais tarde, em crítica magistral feita a O Primo Basílio, de Eça de Queirós, Machado reclamará a "pessoa moral de Luísa", que não aparece no romance português, onde são os acontecimentos, as forças externas, que movem o personagem como um títere. A reclamação não foi bem compreendida na época, porque o sucesso de O Primo Basílio e o favor público de que gozava a escola realista ou naturalista, em que, se matriculara Eça de Queirós, eram mais fortes do que a autoridade do crítico. Hoje, passada a febre daquele modernismo — não há, aliás, coisa que mais depressa envelheça do que um modernismo —, nós admiramos a argúcia da crítica machadiana e ainda mais admiramos a força tranquila com que resistiu às seduções da moda que vinha da Europa.

De certo modo, entretanto, podemos cobrar do autor de Helena ou de A Mão e a Luva o mesmo que êle cobrava de Eça de Queirós. Reclamamos a pessoa profunda, ou a pessoa não esquematizada de Guiomar. Não diremos que os personagens de Machado, nos romances desta fase, são títeres movidos de fora pelo impulso dos acontecimentos. Não direi que Guiomar é um perfil de papel soprado pelo vento; os personagens têm vida interna, têm atividade imanente que predomina sobre os eventos, mas essa mesma atividade — e aqui está a pobreza fundamental desses romances — é uma espécie de mecânica, ou de esquematização psicológica e moral.

À malograda penetração psicológica de Ressurreição substituiu-se uma esquematização de tipos tirados da coleção convencional da época. Essa superficialidade dos personagens era uma das múltiplas manifestações da mentalidade coletiva da época: o apogeu da sociedade liberal burguesa é também um apogeu da superficialidade.

nesses três romances pode-se dizer que Machado foi homem de seu tempo. Ora, não há coisa pior para o artista do que ser do seu tempo, desta maneira assentada e conformada que se submete às tiranias do século. Os personagens dos quatro primeiros romances de Machado de Assis são burgueses e em regra geral vitoriosos. Alguém já observou que os personagens de Dostoiewski não fazem nada, não têm emprego, não têm ocupações: ou melhor, estão intensamente ocupados em serem personagens de Dostoiewski. Os do nosso autor também não fazem nada, mas por motivo diverso: pertencem à camada social que estava dispensada do trabalho e do correlato suor, e que aqui no Brasil tinha ainda, a favor, o hanãicap da escravatura.

Com poucas exceções — que começam a surgir em Iaia Garcia — as figuras centrais são pessoas ricas, e a transmissão das fortunas ou a aquisição da riqueza se faz geralmente pelo instrumento do legado, que tem lugar de destaque nos enredos machadianos, como tão bem observou Raimundo Magalhães Júnior.

Até aqui não há lugar para reclamações. O autor pintou figuras de seu tempo, e claro é que não se pode imputar ao romancista a maldade ou a mediocridade de seus personagens; mas podemos criticá-lo pelo fato de haver tratado aqueles caracteres com os próprios critérios, pobres e convencionais, da mentalidade e da moral de seu tempo.

Os personagens burgueses são apresentados por um autor da mesma espécie, havendo, portanto, conivência entre as atitudes das figuras e o ponto de vista escolhido por quem as retrata. Dir-se-ia que Machado de Assis, até 1881, é um autor que saboreia o sucesso produzido pela concordância com os padrões vigentes, e que por esse prisma antevê os personagens que fabrica.

Os quatro romances dessa época, os três últimos mais do que o primeiro, são obra de um moralista que não se esconde, que intervém, e que dita ao leitor os princípios com que há de julgar as pessoas e as situações. Machado de Assis crê piamente nas instituições e na moral do século, e crê não só no miolo como no matiz e nas aparências da casca. Homem de ordem, futuro fundador de academias, pausado, assentado, só deixa entrever na obra desse tempo, como relâmpagos fugidios, alguns laivos da loucura que mais adiante irá abalar, ou até abater os andaimes que pareciam tão sólidos.

Cabe aqui um reparo. Machado de Assis foi e sempre será um autor que se torna presente na narração, que intervém, que se faz personagem entre os personagens. Ao contrário da escola realista, que pretendia a pura objetividade e completa isenção do autor, Machado se intromete, faz obras de perspectiva pessoal, e faz bem, porque a história que assim nos conta fica enriquecida com o inigualável timbre do narrador. Não importa decidir agora se este processo é melhor do que aquele; mas importa assinalar que o autor explicitamente engajado terá sempre maior dificuldade de fugir à conivência com os personagens.

Nos seus quatro primeiros romances, a nosso ver, Machado de Assis sai-se mal da dificuldade: compromete-se como moralista descoberto e mantém-se superficial e esquemático. Criador e criaturas, autor e personagens, todos estão ligados pelas mesmas relativas e efémeras convenções da época, que o autor considera como perenes decorrências da essência do homem. É verdade que entra sempre na narração, como parte principal dela, o subversivo amor; mas o aparelho da instituição, em que todos, a começar por Machado, criam de um modo que podemos qualificar de supersticioso, domina do alto de sua impavidez todo o travesso jogo das paixões. Os amores encaminham-se para o happy end convencional, ou esbarram, no caso de Helena, na dureza do instituto.

Hoje  nós  vivemos  a   antítese  daquela  época  e temos de lutar, contra o desvario dos costumes, em defesa do que há de real e perpétuo no aparelho humano que deriva da lei natural, isto é, da vontade divina inscrita na natureza das coisas. Mas não cremos, e achamos que não devemos crer nos quadros sociais, e na mecânica deles, como criam os moralistas daqueles tempos estáveis.

Tomemos, para ilustrar a ideia, o enredo de Helena. O personagem principal, que dá nome ao romance, entra como filha legitimada, moça feita, no quadro familiar oeupado pelo jovem Estácio e por sua tia D. Úrsula. Correm os capítulos com a gradativa conquista do afeto da tia, e com o desabrochar de um amor mais do que fraterno entre os dois jovens. Estácio era quase noivo oficial de Eugenia, moça frívola e tola. Com o aparecimento de Helena em sua vida, tornou-se repugnante o namoro que já era fastidioso. Entra em cena o Pe. Melchior, que lembra o cura das Pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis, por sua mansidão convencional, e que o autor nos inculca explicitamente como sábio e santo.

Adivinhando o perigo de incesto que paira sobre os dois irmãos aproximados no ardor da mocidade sem a preparação neutralizadora da infância comum, o Padre empurra  Estácio  para  os  braços  da  enjoada  Eugenia,  e aplaude a ideia do casamento frio de Helena com Mendonça, amigo de Estácio. Até aqui se entende a ação do Padre, embora já nos pareça um pouco estúpida e até repugnante. Ele crê demais nas instituições e de menos no amor. Não só aceita mas também recomenda um casamento que começa pelo desafeto evidente e declarado, admite-se, entretanto, a atitude do Padre: diante de um perigo iminente busca uma solução em que o perigo está distante. O que não se admite é que tal conselho seja apresentado como fruto da santidade e da sabedoria.

Se o autor não nos houvesse dado sua opinião, limitando-se a deixair andar seus personagens, nada poderíamos reclamar: os personagens, o Padre inclusive, estariam dançando com a música do século. O autor é que não pode dançar. Se imita Deus no ato criador tem de imitá-lo também em sua imutabilidade. Em outras palavras, o olhar que observa as coisas efêmeras tem de ter referências perenes. Uma das coisas que o romancista tem de fazer, na opinião de Mauriacli é destrinçar o eterno do efémero. Ora, nos seus primeiros romances, Machado não soube efetuar essa discriminação e tornou-se conivente com as fraquezas de seus personagens.

Mas não pára naquele ponto, em que o P. Melchior aconselha casamentos sem amor, o que chamo conivência do autor. Mais adiante fica provado que os dois moços não eram meio-irmãos, como supúnhamos. Helena tinha pai vivo, e nenhum sangue de Estácio. Ora, com a incrível dureza das categorias da época, o drama prossegue, -agora em nome das conveniências sociais e das aparências! O noivado de Estácio não se pode desmanchar - como se a indissolubilidade do matrimónio tivesse extravasado até à promessa dele, e aqui torna o P. Melchior a intervir em favor de tão repugnante conúbio, contra as leis divinas do amor desimpedido.

E o autor está com o Padre. Lastimam ambos a sorte de Helena, mas respeitam ambos os falsos mandamentos que a assassinam.

Os moços enamorados dos primeiros romances de Machado são quase sempre ricos, quase sempre herdeiros, casam-se por gosto ou contragosto, e entram quase sempre para a Câmara dos Deputados. O autor pressente certamente — e às vezes entremostra um susto — o desconcerto dessa falsa ordem em que se move a tranquila sociedade de seu tempo; mas o caso é que êle também se move e se guia pelos mesmos referenciais, com uma credulidade que não parece prenunciar Brás Cubas.

Seus romances, com a diferença a seu favor de uma penetração psicológica maior, parecem-se com os de Júlio Dinis: são esplendidamente escritos, amáveis - e superficiais. Devem ser lidos por quem queira estudar a obra toda e a evolução dela, mas não merecem atenção pelo próprio valor.

Se Machado de Assis tivesse morrido antes de 1881, nós não teríamos Machado de Assis. Felizmente viveu, e felizmente deixou operar-se em si uma transformação espiritual profunda que libertou o génio escondido. O moralismo burguês será substituído por um angustiado vazio, por um desolado deserto varrido, por ventos de sandice. O novo autor do novo romance, talvez para marcar a linha divisória, começa pela morte do personagem, e substitui toda a ordem racional e moral dos romances anteriores por um delírio, que é a chave da nova estética.     

Quem acaba de ler Iaiá Garcia (supondo que tenha lido os anteriores em ordem cronológica, como tivemos de fazer para preparar esta introdução) e começa a leitura de Memórias Póstumas de Brás Cubas, vê logo, com refulgente evidência, que está diante de um fato novo, ou de uma nova estética, Como disse Alfredo Pujol. Nos romances anteriores, excetuando talvez Ressurreição, que é um ensaio diferente e malogrado, Machado de Assis realiza aplicadamente o romance de caracteres e o jogo esquematizado das paixões quie os personagens encarnam...

Como excelentemente observou Barreto Filho (op. cit., págs. 115 e 116), "o jogo dos caracteres se reduz ao típico e nunca chega ao pessoal nesses romances. Os caracteres se definem pelos sentimentos genéricos, pela ambição, pelo amor, pela gratidão". Ou então dir-se-ia, segundo o mesmo fino crítico, que "por enquanto Machado deseja caminhar na estrada batida, e se recusa a ouvir o seu demónio interior, que o convida a uma outra aventura" (op. 'cit., pag. 112). Em Brás Cubas, vê-se logo que Machado liberou o demónio interior e começa uma nova aventura.

Compare o estudioso os dois romances, Iaia Garcia e Brás Cubas, a começar pela estrutura geral e pela sequência dos capítulos. Em Iaiá Garcia temos uma narração corrida, lógica, e em cada capítulo, como numa cena de teatro, vemos sempre três ou quatro dos personagens principais. É sempre a vida deles, ou melhor, os atos decorrentes dos sentimentos marcantes, que dão substância à obra e que prendem a atenção do leitor.

Agora, em Brás Cubas, o próprio autor nos adverte, no mais delicioso dos prefácios, que a obra é difusa. "Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo, aí fica, privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião."

Como se quisesse marcar de modo inconfundível o início de uma nova aventura pelo próprio arcabouço da obra, começa pela morte, e antes de pegar o fio da narração perde-se em considerações e entra em delírio.

Correndo a lista dos capítulos, vê-se que boa parte é feita de digressões, que interrompem a narração e quebram a unidade fácil do "romance usual", substituindo-a por outra mais sutil; e vê-se que muitos desses capítulos se cristalizam literariamente, com unidade própria, em páginas de antologia, como é o caso de "A Propósito de Botas" e "História de D. Plácida", que vão reproduzidas neste volume.

O contraste entre Brás Cubas e a obra anterior, como entre esta nova aventura e a vida de Machado, é tão forte que temos a tentação de dizer, com Lúcia Miguel-Pereira, que "tal obra não podia ter saído de tal homem".

Mas não é a nova aventura ou a nova estética que constituem a essencial novidade da obra que aparece em 1881. Ela é diferente não apenas na forma, mas, sobretudo, na espiritualidade, na inspiração. Será preciso reabilitar o conceito platónico de inspiração, ou de delírio poético, como o fêz Maritain no subcapítulo intitulado "Mania from Below and Mania from Above" de seu grande livro sobre estética (Intuição Criadora em Arte e Poesia), para compreendermos melhor a diferença dimensional que existe entre Iaiá Garcia e Brás Cubas.

Tínhamos antes um escritor talentoso, adaptado, que fazia obra ao sabor das convenções correntes, manejando muitíssimo bem a língua, mas seguindo os caminhos batidos; temos agora diante de nós, com espanto nosso, quase com susto, um valor peregrino, ímpar, que iguala as maiores altitudes da literatura universal, e que na língua portuguesa só encontra comparação digna de seu porte em Camões e Fernando Pessoa.

E inútil procurar em algum fator externo, como aconselha uma errónea filosofia, a causa principal de tão notável transformação. As circunstâncias podem ter desempenhado o papel de estimulante ou de propiciação, mas a fonte, a causa verdadeira e principal estava nas energias espirituais do autorO que houve foi eclosão das riquezas de uma personalidade, ou explosão de um génio. A nova estética é mais efeito do que causa, mas efeito que reflui e se torna uma espécie de causa instrumental.

O fato é que Machado de Assis, por volta de 1880, ganha novos olhos para o mundo e para a vida, ou passa a olhar por esses que já tinha e agora se descerram; e as páginas de Brás Cubas atestam a singular penetração das novas pupilas, e as bizarras refrações que se observam nas profundidades por elas alcançadas. Foi bom para êle, e para nós, que sua vida tivesse corrido tranquila, porque assim, isenta de asperezas superficiais, livre da dramaticidade periférica, pôde a alma do artista sentir a dor mais funda e mais fundamental, pôde apreender a aflição cósmica, metafísica, que o poeta latino dizia  serem as lágrimas das coisas.

A partir da descoberta, ou da revelação, a obra de Machado ganha um amargor, que  seu grande amigo Joaquim Nabuco chamava "vesícula de fel" e que críticos posteriores chamarão pessimismo, cepticismo, e até maus bofes. Essas qualificações  são injustas, ou impróprias, ou muito insuficientes, e mal exprimem o que caracteriza principalmente nosso autor, isto é, a extraordinária acuidade de uma alma para a amargura das coisas, para o gemido fundo do ser criado e pendente em sua contingência. Sim, as coisas é que são amargas.

O filósofo diz de outro modo a mesma verdade: o ser criado é composto de potência e ato, é frágil na sua contingência, é poroso e exposto às vicissitudes. O teólogo ensina que há um dom sobrenatural, o dom de ciência, que dá à alma um especial afinamento, uma aguda capacidade de valorizar o criado em face do Incriado. Por essa divina orelha, os místicos ouvem o que o Apóstolo descreve na Epistola aos Romanos: "Sabemos que toda a criação geme nas dores do parto; e não geme só o mundo: nós, que possuímos as primícias do Espírito Santo, também gememos dentro de nós mesmos..."

Experiência análoga faz o poeta que descobre as lágrimas das coisas, como Virgílio, ou o desconcerto do mundo, como Camões. Essa é a chave que dará conta das páginas pungentes que alguns críticos classificaram de pessimistas ou cépticas. Machado de Assis não é um céptico; sempre foi crente, sempre acreditou em Deus, no bem e no mal; mas, depois da revolução interna, as, categorias parecem subvertidas e o crente se torna extraordinariamente perplexo. Descoberta a radical fragilidade do ser, Machado transfere para a obra de arte o amargor que traz da experiência metafísica.

A loucura e a infidelidade serão os seus temas favoritos; e no enredo de Dom Casmurro é Capitu, com seus olhos de ressaca, quem tem a incumbência de representar, encarnada, a fragilidade geral da vida e do mundo, e é quem representa a pior espécie de malogro — aquele que consegue destruir o que parecia definitivamente adjudicado: o passado, a eternidade da infância. A falha de Capitu, no romance de Machado, é "falha mais radical, uma traição à Infância, uma negação da poesia da vida", como diz Barreto Filho.

A leitura do Eclesiastes, que foi para Machado "um manual de sabedoria", dará ao estudioso o tom — essa espécie de tom menor mozartiano, chapliniano — em que foram escritos os romances maiores de Machado; e convém lembrar que seria extremamente impróprio chamar de céptico o ardente autor do Eclesiastes.

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Resta ainda dizer algumas palavras sobre o modo que Machado escolheu para exprimir a experiência profunda a que nos referimos. Ora, o que Machado de Assis achou de melhor para exprimir as lágrimas das coisas foi o riso do humorista, e foi essa fórmula desconcertante que levou os críticos a interpretar como inafetividade ou cepticismo o que é uma fina e aguda dor escondida. Estranha técnica, na verdade, é essa que nos faz sorrir nas passagens mais pungentes!

Voltando ao conceito platónico de loucura inspirada, e à passagem em que Barreto Filho diz que Machado ainda não resolvera libertar o demónio interior, que o convidava a grandes expedições no país dos contrastes, poderíamos dizer que em 1880, mercê de alguma circunstância que nos escapa, o doido aprisionado, o supervivo, como diria Chesterton, libertou-se da custódia em que estava mantido, sob a vigilância do amanuense, do pai de família, e do escritor bem sucedido.

Na verdade, é tamanha a incongruidade do espetáculo observado, quando a alma mergulha mais fundo, que se torna mister, para exprimi-lo, procurar novo instrumento, ou nova atitude que a muitos parecerá insensata ou até perversa. Camões e Fernando Pessoa passaram por experiências espirituais semelhantes, e sentiram bem o trágico, ou o tragiocômico da condição humana; mas altos demais para responder aos desafios do mundo com a fórmula moderna da "náusea" ou com a pseudofórmula do "absurdo", responderam com o delírio que Maritain, invocando Platão, chamou "mania from above". À sandice do mundo, à loucura horizontal do século e de suas vaidades, respondem com a loucura poética, como o santo responde com a loucura vertical da cruz.

humorismo machadiano, na sua obra de maturidade, é uma espécie de lágrima que secou e virou cristal com centelha de riso: é um recurso que forma com o conteúdo trágico da narração um composto de singular dinamismo emocional. As melhores páginas dos romances e contos de Machado são aquelas em que o autor finge pairar numa estóica ou céptica indiferença acima do drama, e ainda nos provoca o sorriso nas mais pungentes situações, como por exemplo, na "História de D. Plácida", ou na primeira página do conto "Pai Contra Mãe", onde nós vemos o homem, que por outras vias sabemos ter sido um ardente abolicionista, a sorrir-se da escravidão. Foi esse critério, do humorismo pungente, e de certo modo fingidor ("o poeta é um fingidor, finge tão completamente..." — Fernando Pessoa) , que nos guiou na escolha das páginas exemplares. 

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Há dois modos de ler: um que vai direito à coisa significada, sem se deter no sinal; e outro que dá valor ao sinal, às palavras, às construções verbais, por suspeitar que nelas esteja contida, pegada, uma parte importante da mensagem. Machado deve ser lido deste modo e não daquele; não apenas para saborear a boa linguagem ou o harmonioso estilo, mas para entender em maior profundidade o que o autor quer transmitir, Machado deve ser lido com atenção por assim dizer duplicada, indo uma parte à coisa significada e outra ao sinal, às palavras, à sintaxe, às regências porque boa e misteriosa parte da coisa significada está presa à estrutura verbalNão se pode contar um conto de Machado, ou narrar um capítulo de romance com outras palavras. O conteúdo está vitalmente colado à forma. O jogo de ideias está preso ao jogo dos elementos da linguagem.

E é por isso que a obra de Machado é praticamente intraduzível em outro idioma, pois seria preciso aparecer no estrangeiro um escritor estilista de alto quilate, que pertencesse à família espiritual de Machado e que tivesse um profundo conhecimento da língua portuguesa. A probabilidade de tal acontecimento é ínfima, e é bem possível que cheguemos ao Juízo Final sem que Machado de Assis tenha realmente sido apreciado fora de nossas fronteiras. E é pena, para nós que estamos sempre sujeitos a certo sentimento de inferioridade, e para os estrangeiros que perdem a possibilidade de apreciar um dos primores da humanidade.

As traduções que até agora foram feitas, umas melhores, outras piores, darão aos franceses e ingleses uma ideia apenas aproximada do que são Quincas Borba e Memórias Póstumas de Brás Cubas.

O estilo muito marcado, e, sobretudo, muito intencionalmente significativo, tem as qualidades e as intolerâncias da poesia: não se pode tocar numa preposição nem se pode substituir um termo por outro tido por equivalente. Para o estilista não há sinónimos, porque cada vocábulo, com sua significação, suas conotações, seu som e até sua grafia, é ao mesmo tempo sinal da coisa significada e sinal revelador do prisma com que a vê o autor.

De tudo isto se tira que a leitura da obra de Machado de Assis deve ser compassada e atenta, sendo recomendável, em muitas passagens, para valorização do ritmo e do choque de fonemas, a leitura em voz alta, desde que se evite cuidadosamente a ênfase declamatória, que é mortal para o estilo de Machado.


Gustavo Corção
 

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